domingo, dezembro 21, 2014

Boas Festas 2014



Aproveito a época natalícia para desejar Boas Festas aos seguidores e colaboradores do blogue.
A essência do Natal gira em torno dos relacionamentos com as pessoas, aproveite a quadra natalícia, e reforce os vínculos com as pessoas especiais.

- Recuperar É Que Está A Dar - Ame, sinta, desfrute, descomplique, partilhe e acrescente algo com significado ao rumo da sua vida.

Para as pessoas que estão em recuperação da sua adicção, esta altura do ano apresenta algumas situações de risco de recaída (festas, presentes, pessoas, pressão, comida, memórias dolorosas, relacionamentos difíceis com pessoas). 
Anteveja cenarios de risco e elabore um plano de prevenção de recaída com objectivos realistas e específicos, de forma a manter a sua recuperação em primeiro lugar. Você não está sozinho/a, caso seja necessário apele aos seus recursos (pessoas e/ou instituições).
Se você se considera um/a adicto/a, a recuperação deverá ser a prioridade nº1 na sua vida.

Seja feliz!

sábado, dezembro 20, 2014

Estrutura do cérebro associada à recompensa/prazer e a adicção



O abuso de drogas, substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, lícitas e/ou ilícitas podem comprometer o funcionamento normal do cérebro (estruturas cérebro responsáveis pela recompensa/prazer) contribuindo assim para a adicção/dependência.
Alguns sintomas:

  • Síndrome da abstinência, vulgo ressaca.
  • Tolerância à substancia psicoactiva, aumenta a frequência, a dose e o consumo (abuso), vulgo prazer imediato e oscilação dos sentimentos.
  • Continuar a usar drogas apesar das consequências negativas, vulgo perda do controlo.
  • De acordo com recentes estudos, as mesmas estruturas cerebrais associadas à recompensa/prazer também estão relacionadas com outros comportamentos adictivos, tais como o sexo, o jogo, as compras, os relacionamentos e o distúrbio alimentar. 

 Veja o video

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Devemos viver no presente ou precisamos de contemplar o passado?


Gestão da dor e do conflito: Devemos viver no presente ou precisamos de contemplar o passado?
Durante os momentos mais atribulados do devir, optar por viver no momento presente, pode revelar-se uma excelente escolha. Reduz e atenua a intensidade dos pensamentos bizarros e o estado de alerta excessivo (medo); lixo toxico e inútil.

Diante a adversidade, da dor, do conflito, da impotência, quando tudo o resto falha, após múltiplas tentativas sem sucesso para encontrar a solução ou o alívio imediato, resta-nos concentrar todas as nossas competências cognitivas, emocionais e espirituais no momento presente – aqui-e-agora.

Viver no presente não significa ignorar os problemas, ser irresponsável ou revelar falta de determinação. Significa perspectivar, seleccionar e optar pelos pensamentos construtivos aumentando assim o leque de escolhas viáveis e positivas.
Estamos a cismar sobre aquilo que devíamos ou tínhamos ter feito? Com que frequência você utiliza as palavras; 1. devia ou 2. tinha, sem que obtenha um resultado esclarecedor ou apaziguador sobre o problema? Isto é, você utiliza o devia e o tinha somente para se punir ou castigar? Se a resposta é sim, opte concentrar o pensamento no aqui-e-agora.


Se você está a atravessar uma fase dolorosa da sua vida e após sucessivas tentativas para modificar a situação falharem, quando não restarem mais opções, especular sobre o passado ou futuro é uma perda de tempo e energia. Opte por viver um dia de cada vez, aqui-e-agora.

sexta-feira, novembro 28, 2014

Sou mãe de um adicto


“Sou a mãe de um adicto*” por dfdwilkins

Ser mãe de um adicto não é a mesma coisa que ser mãe de um filho com cancro, diabetes ou VIH.
Ser mãe de um adicto não é a mesma coisa que ser mãe de um filho que serve o seu país no estrangeiro com honra.
Ser mãe de um adicto não é a mesma coisa que ser mãe de um filho que já não vive em casa, é chorado e lembrado todos os dias, pelos seus entes queridos.

Sou a mãe de um adicto
Não existem maratonas, campanhas de angariação de fundos ou campanhas de sensibilização com pessoas bonitas e famosas sobre os efeitos trágicos desta doença
Não existem bandeiras hasteadas ou pulseiras coloridas que sirvam para reconhecer, orgulhosamente, as acções do meu filho
Só existem lágrimas, gritos silenciosos e angustia quando alguém bater à porta ou através de uma chamada telefónica com uma notícia trágica de algo que possa ter acontecido ao meu filho

Sou a mãe de um adicto
Vejo o meu filho todos os dias, mas não estou feliz, embora ache, com um certa dose de alívio, que a melhor maneira de o ajudar, não é querer controlar, pelo contrário, é deixar que ele tenha a sua própria vida e aprenda com as consequências das suas decisões
Quando oiço aquilo que ele diz, antecipo com medo e preocupação o futuro do meu filho, apesar de tudo, ainda tenho uma réstia de esperança
Quando olho para o meu filho, questiono-me se algum dia irei voltar a ter uma relação de confiança com ele, abraça-lo ou em último caso, se irei voltar a vê-lo outra vez

sexta-feira, outubro 24, 2014

O poder da palavra.



"Bom dia Caro João Alexandre!
 Regra do silêncio.
Chamo-me Maria José, tenho 40 anos, sou alcoólica (adicta) e estou em recuperação há 13 meses após internamento de 5 semanas e frequento as salas de Alcoólicos Anónimos (1) (AA).

A regra do silêncio reinou entre o meu ex. marido e eu durante todos os anos do meu consumo - quase 20 - e estendeu-se ao início da minha recuperação.

Foi sempre um acordo mútuo entre os dois. Eu acreditava que era uma componente do amor e um factor de protecção. Portanto, acreditava que era algo de positivo entre nós. Sentia muita gratidão pelo meu marido manter este segredo.

Conseguíamos, mais ou menos, esconder os meus consumos. Nos últimos anos, passei a beber de forma solitária, nunca ficava bêbeda, era discreta nas compras. O meu marido jurava que ninguém sabia, a preocupação era a família dele que desde a nossa falência nos ajudava financeiramente, assim como também se ocupava da nossa filha, de tenra idade, nenhum de nós trabalhava.

Oficialmente, eu estava doente e dependente das benzodiazepinas (2), que também era verdade. Por dia, tomava duas boas dezenas de comprimidos juntamente com o álcool. Não para me "drogar" ou me sentir "bem", nunca senti esse efeito. Fazia-o para me acalmar, buscava o efeito terapêutico, que não sentia, tal era a tolerância que já lhes tinha ganho. Na realidade, não podia passar sem elas.

sábado, setembro 13, 2014

Recuperar faz parte da herança familiar


Provavelmente a maioria dos portugueses, conhece o ilustre actor norte-americano de Hollywood, Robert Downey Jr. (49 anos), vulgarmente conhecido, na sociedade americana, como o “Homem de Ferro” pela sua participação no filme da Marvel Comics, com o mesmo nome. Segundo a revista americana Vanity Fair é o actor mais bem pago do mundo. Começou a sua carreira muito cedo no cinema, aos seis anos de idade já participava nos filmes do seu pai, Robert Downey Sr. Desde essa altura a sua carreira tem sido recheada de prémios (Globos de Ouro entre outros) e sucessos, inclusivamente, creio ter sido nomeado, por duas vezes, para os Óscares pela sua interpretação nos filmes “Chaplin” e “Tempestade Tropical”.

Paralelamente, aos seus sucessos, uma parte da sua vida tem sido afectada pela dependência de drogas e as inevitáveis consequências negativas, tais como, problemas com a família, incluindo as crianças, problemas com a justiça e profissionais. Ao longo da sua vida o actor, desde os 18 anos, fez varias tentativas para se tratar, contudo sem sucesso, finalmente desde 2002 encontra-se em recuperação da adicção às drogas.

quarta-feira, agosto 27, 2014

sexta-feira, agosto 15, 2014

Robin Williams- Homenagem ao actor e ao homem que lutou contra a adicção.



Algumas frases famosas do actor

  • A cocaína é a forma de Deus nos dizer que estamos a ganhar demasiado dinheiro.”
  • Pensava que a pior coisa era acabar sozinho. Não é. É acabar junto de pessoas que te fazem sentir só.”
  • “Não importa o que as pessoas te dizem, palavras e ideias podem mudar o mundo.”
  • Nunca lute com uma pessoa feia, pois ela não tem nada a perder.”
  • “Só tens direito a uma pequena dose de loucura, não deves desperdiçá-la.”
  • “Deus deu aos homens um pénis e um cérebro, mas infelizmente não lhes deu a capacidade de utilizar os dois ao mesmo tempo.”
  • “Sabe qual é a diferença entre um tornado e um divórcio? Nenhuma, em ambos os casos alguém está perdendo a casa.”
Soube da sua morte na passada segunda-feira. Fiquei em choque, sem palavras, e com imensas questões na minha cabeça, para as quais, ao longo da semana, procurei as respostas. Porquê? Como é possível?
O suicido é uma realidade cruel. Somos seres complexos e multitalentosos, quer na busca da realização pessoal, como na busca de soluções imediatas e irracionais para a dor, o sofrimento, o desespero e a solidão. É um paradoxo com o qual precisamos de viver, e por ultimo aceitar, o melhor possível.

Como não podia deixar de ser, e apesar de tanto se ter falado e escrito durante esta semana, tenho que prestar homenagem ao actor e ao homem que lutou, com todas as suas forças, contra a doença mental e a adicção e acabou por falecer de uma forma abrupta. Como adepto do cinema que sou, desde muito cedo, Robin Williams, foi dos actores que mais ajudou a compreender e a identificar, através dos seus mais variados papeis, a importância da sensibilidade, do sentido da humanidade, do sentido de humor, da paixão, do altruísmo, do sonho e da alegria, da irreverência contra o preconceito e o estereótipo, da coragem, etc. Os adjectivos que classificam este artista não têm fim, era uma força da natureza genial, tal como a grande maioria dos adictos que conheço. Por varias ocasiões, Robin veio publicamente, assumir a sua dependência de substâncias psicoactivas, vulgo drogas, (cocaína e alcoolismo) e reafirmar a esperança na recuperação, contra o estigma, a negação e a vergonha. Robin era actor, um marido, um pai e um membro activo da sociedade prestando apoio em várias causas sociais.  

Para terminar a minha homenagem, gostaria de reforçar que é um mito considerarmos que o suicídio é um acto de coragem. Não tem nada a ver com coragem. É um acto de alguém que está angustiado, só e desesperado, e naquele momento de sofrimento intenso, mas efémero, contempla o suicídio, como a solução definitiva para o desespero. Ironicamente, o seu último filme, com o título “Aproveita a vida” é sobre um homem decepcionado. O homem morre, mas a sua genialidade, permanecerá presente, na memória colectiva, para a eternidade. Os adictos são pessoas, de extremos, ora apaixonadas ora decepcionadas, porque procuram viver intensamente, por vezes, demasiadamente; é tudo muito.


RIP, Robin ( 1951-2014). As minhas condolências para a família que irá viver com esta tragedia, contra a sua vontade, para o resto das suas vidas. 

sexta-feira, agosto 08, 2014

Nação resiliente no facebook 2014


Passatempo no Facebook sobre a gratidão. Pedi aos seguidores da plataforma para completarem a seguinte afirmação: - Estou grato/a por… e enviar uma mensagem a fim de o seu conteúdo ser publicado aqui no blogue.
Faça uma lista de 5 coisas pelas quais está grato/a.

Eis as respostas:
  • Silvia Rivera

Estou grata por estar viva!

  • Renata Ramos

1-Grata por estar viva. 2- Grata por minha filha. 3- Grata por manter-me abstinente de drogas e poder enxergar tudo melhor. 4- Grata por minha família. 5- Grata por ter o conhecimento do funcionamento da vida, do universo e poder ter o cuidado com cada pensamento. Bem-haja!

  • Iris Maria

 1-Por ter FÉ 2- Por estar viva. 3- Por apoiar meu filho quando muitos viraram as costas. 4- Pelo seu Blogue esclarecedor e verdadeiro. 5- Por estar aprendendo a AGIR.

  • Suzete Pereira

Grata por ter encontrado FA e por ter podido trabalhar os passos, por ter aprendido a viver o agora, por ter aprendido a ter uma fé saudável, por tentar amar incondicionalmente (e muitas outras).

  • Mafalda Mimoso

Eu estou grata por 1. Ser resiliente 2. Amor e ajuda dos familiares e amigos 3. Viver rodeada pela Natureza 4. Evoluir em termos interiores 5. Ser optimista.

  • Maria Aparecida Nunes

Estar viva!

  • Cristina Moreno Neca

Por tudo.... inclusive os problemas q me serviram de "lição."

  • José António Reis Ferreira

Finalmente me amar!

  • Ana Gomes

Estar livre do que me aprisionava há três anos atrás.

  • Fátima Silva Hoffmeister

Sou grata a Deus pelo dom da vida, por ter aprendido a ser grata, por rever alguns conceitos pré- estabelecido (falsa crença), Pelas pedras no caminho, retira-las é minha responsabilidade, e a responsabilidade leva ao crescimento!

  • Genoveva Costa

Educar o meu filho de forma não ser co- dependente.

  • Evelise Fonseca

Vida, saúde, amor-próprio, família, conciliação.

  • Emília Machado

Ser mulher, mãe, filha, livre, amada, sobrevivente, viva! e SER feliz!!

  • Cristina Moreno Neca

Estar viva, ter Filhos, ter Amigos, ser saudável, ter trabalho.

  • Patrícia Bento

Ser mãe; Vontade de viver; família; amor; saúde ainda q com pequenos problemas; e mais algumas.

  • António Rodrigues

A: Deus, N.A., Amigos, Família e a tudo o que sou!

  • Maria Aparecida Nunes

Estou grata por estar viva, por ter um trabalho, conseguir separar e ficar livre da dependência emocional, saber que sou uma pessoa melhor, ter um relacionamento melhor com meus filhos após a separação!

  • Emília Machado

Sou grata por sobreviver ao meu uso, a ser uma pessoa melhor, ser mulher, mãe, amiga, esposa, família, amada, muito grata por ter outro modo de vida, e ser muito feliz! 

Bem hajam pela participação. Recuperar é que está a dar.


quarta-feira, agosto 06, 2014

Prescrição de opioides no tratamento da dor


O objectivo da prescrição de opioides visa fundamentalmente, numa situação clínica de tratamento da dor, melhorar a qualidade de vida.Caso você identifique um historial de comportamentos adictivos/dependência consulte o seu médico. Não faça auto medicação.

quarta-feira, julho 30, 2014

Ao contrario do que se pensa, é possível recuperar da adicção


Suicídio: um acto silencioso e isolado fundamentado em sentimentos temporários e dolorosos.  
Acompanhei inúmeras pessoas que durante uma fase atribulada e dolorosa das suas vidas, afectadas pela adicção activa, contemplaram o suicídio. A adicção é uma doença que na sua génese gera imenso sofrimento, isolamento e que precisa de ser tratada; não é uma questão moral ou fraqueza, mas um problema de saúde, tal como muitos outros. Após ultrapassarem essa fase adversa, essas são pessoas, hoje, não menosprezam as lições do devir. A maioria de nós, nos momentos atribulados de dor intensa, questiona a existência angustiada e atormentada, mas depois de transpor estes sentimentos dolorosos, ficamos mais lúcidos e conscientes das nossas limitações. Apesar de precisarmos de aprender a viver com a dor, podemos e conseguimos mitigar o sofrimento e o isolamento. Como bem sabemos, e por vezes ignoramos, o ego inflamado pode conduzir-nos às nuvens, mas quando fica dorido, também pode arrastar-nos para a escuridão.

É um mito considerarmos que o suicídio é um "acto de cobardia ou de coragem". A fim de esclarecer melhor esta questão, podemos fazer esta analogia; decidir matar outra pessoa só por não gostarmos dela nunca será considerado um acto de coragem ou cobardia. Podemos aplicar a mesma logica ao suicídio; fazer mal a nós mesmo, quando nos sentimentos angustiados e deprimidos, também nunca será um acto de cobardia ou coragem. Qualquer pessoa que pense no suicídio estará naquele período de tempo, a viver uma vida atormentada e em sofrimento atroz. Para todos os efeitos, está doente e debilitada. Como é que gerimos os nossos sentimentos quando nos sentimos impotentes perante a angústia e o tormento? Quando sentimos que estamos sós e rejeitados?

“Não tome decisões permanentes, sobre sentimentos temporários.”
Apesar do sofrimento e da dor temporária; é possível recuperarda adicção, um dia de cada vez.
Saiba mais sobre a dor e o suicídio.  SOS Voz Amiga Você não está sozinho/a


Dr William D. Silkworth


Dr. William Duncan Silkworth (1873-1951)

27 de Julho de 1938 - O Dr. Silkworth escreve um artigo que é publicado no livro "Big Book", dos Alcoólicos Anónimos,intitulado “A Opinião do Médico"

"Especializei-me no tratamento do alcoolismo durante muitos anos.
No inicio dos anos 30, tratei um paciente que, apesar de ter sido um homem de negócios competente, com muita capacidade para ganhar dinheiro, era um alcoólico de um tipo que eu tinha chegado a considerar irrecuperável.
Durante o seu terceiro tratamento adquiriu determinadas ideias sobre um possível programa de recuperação. Como parte da sua reabilitação, começou a dar a conhecer os conceitos do seu programa de recuperação a outros alcoólicos, incutindo neles a necessidade de fazer o mesmo com os outros. Este conceito veio a tornar-se a base de uma associação formada por alcoólicos em recuperação e pelas suas famílias em rápido crescimento. Tudo leva a crer que este homem e mais uma centena se recuperaram .
Pessoalmente, conheço também um numero de casos idênticos em que outras abordagens diferentes falharam por completo.
Estes factos parecem ter a maior importância médica, e devido às extraordinárias possibilidades de rápido crescimento inerentes a este grupo, eles podem vir a assinalar uma nova abordagem nos anais do tratamento do alcoolismo. É bem possível que estes homens tenham um solução para milhares de casos de pessoas com problemas com o álcool.
Pode confiar-se inteiramente em tudo aquilo que partilhem a respeito de si próprios.
Atenciosamente,
William D. Silworth"

Comentário: No passado dia 27 de Julho de 2014 celebrou-se setenta e seis anos (76) após a publicação da carta do Dr. Silkworth. Podemos constatar que a sua visão sobre "(...) estes homens..." veio revelar-se uma realidade inquestionável, não só nos EUA, mas em todo o mundo, incluindo Portugal. Faço votos que mais profissionais da saúde, em Portugal, possam também ter uma visão semelhante sobre o tratamento do alcoolismo visto ainda existirem imenso mitos e falsos preconceitos sobre o programa de recuperação dos Alcoólicos Anónimos.  RIP, Dr Silkworth.

sexta-feira, julho 11, 2014

Desafio ou estorvo


Considera que precisa de mudar algo na sua vida? Você está numa fase de ambivalência? Se a resposta a estas duas questões é sim, este post é para si. 
Alguns factores servem para desmotivar: 
  • Definir objectivos ambíguos e irreais. 
  • Focar a atenção somente em problemas insolúveis. 
  • Cismar pela negativa - andar sempre a queixar-se daquilo que não pode, não consegue e não resulta. 
  • Falta de reconhecimento, ambição e não participar no processo de mudança com acções construtivas – agente de mudança. 
  • Comparar e justificar o infortúnio com o sucesso dos outros. 
  • Relacionar-se com pessoas, que afirmam "Não vais conseguir" ou “Não vale a pena tentares, porque não vais ser és capaz.” 
  • Ansiedade extrema e projectar no futuro as desilusões e falhanços do passado como se fosse uma profecia; acreditar que vão voltar a acontecer. Consequentemente iremos ficar paralisados e incapazes de criar novas alternativas.


Assuma inteira responsabilidade pelos seus sentimentos e comportamentos. Cabe a nós decidir o rumo das nossas acções, de acordo com os sentimentos que estamos a sentir em determinada altura e em alinhamento com as nossas convicções. Quando conseguimos reunir a motivação necessária conseguimos feitos extraordinários e fora do comum.
1. Escreva uma lista das vantagens e das desvantagens na mudança.
2. Escreva uma lista das opções e dos recursos que dispõe a fim de reforçar as competências necessárias.
3. Escreva uma lista de pessoas que o/a apoiam na mudança.
4. Os seus objectivos precisam de ser específicos, realistas, auto motivacionais, medíveis no tempo, atingíveis e de fácil compreensão.

“ O desejo de fazer alguma coisa porque se considera essa coisa profundamente satisfatória e pessoalmente desafiadora é o que inspira os níveis mais elevados de criatividade, quer nas artes, quer nas ciências ou nos negócios.
Teresa Amabile, Professora da Universidade de Harvard



sábado, julho 05, 2014

Filhos de pais alcoolicos

Este texto, enviado pela Renata, veio no seguimento de uma publicação no Facebook onde solicitei o envio de experiências de adultos, que tenham tido pais com problemas de álcool e/ou drogas ilícitas. Eis o relato da Renata.

“Tenho um pai e uma irmã que bebem todos os fins de semana, e às vezes, no meio da semana. Vivem dizendo que é normal, e que, como todos fazem , que mal tem ? Mas percebo a incoerência nas atitudes, no modo de vida maquiado como normal, porém completamente fora do contexto. Percebo atitudes completamente diferentes do "viver em conjunto" o álcool ou a adicção retirou deles o pé do chão, como se estivessem literalmente voando ou como se vivessem em outro mundo sendo o convívio muito difícil dado ao fato que podemos ser diferentes mas precisamos concordar em conectar.
Não há dessas pessoas o menor interesse em saber sobre isso ou parar esse processo...sou adicta e “limpa” e esses familiares precisam de ajuda mas talvez a única maneira de ajudá-los seja ficando bem longe!
João, acabo de expor-lhe minha realidade e tem a ver com o post sobre familiares adictos!
Obrigada”
Renata Ramos

Nota: Todos os dados foram preservados com a devida autorização da autora. Contra o estigma, a negação e a vergonha. Bem-haja Renata.

Comentário: Tal como a Renata refere, a estrutura familiar aparenta estar afectada pelo álcool. Segundo alguns estudos, nos EUA, referem:
  • Os filhos de pais alcoólicos estão mais vulneráveis ao risco de desenvolverem problemas com substâncias psicoactivas – abuso e dependência.
  • Os pais que apresentam problemas com álcool e/ou outras drogas podem influenciar os comportamentos dos seus filhos. O consumo e o abuso de drogas, incluindo o álcool, podem ser considerados permissivos entre a família, incluindo as crianças.
  • As famílias afectadas pelo álcool e/ou outras drogas estão mais propensas ao conflito, comparativamente, aquelas famílias que não estão expostas ao problema do álcool e/ou drogas. Os problemas na família giram em torno do consumo e do abuso de substâncias psicoactivas.
  • O ambiente familiar disfuncional, relacionado com o álcool e/ou outras drogas, propicia a negligencia das crianças e a falta de comunicação entre os seus membros; referências parentais, os papéis na estrutura e dinâmica da família e a gestão de conflitos.   
  • Alguns problemas identificados nas famílias com problemas de álcool e/ou outras drogas: Tendência para o incremento do conflito familiar, violência física e emocional, redução da coesão e da organização familiar, stress e isolamento, problemas de saúde e no trabalho, problemas/conflitos conjugais e financeiros, mudanças drásticas na estrutura familiar, incluindo as crianças.


O seu pai e/ou mãe tem um problema com álcool? Ou drogas? Caso você seja filho/a de pais alcoólicos ou dependentes de drogas ilícitas escreva um pequeno texto sobre a sua experiência a fim de ser publicada no meu blogue. Pela minha experiência profissional de duas décadas e apesar de não existir estudos sobre este tema, existem em Portugal centenas, de filhos de pais alcoólicos ou dependentes de drogas, hoje adultos, que ainda sofrem em silêncio o trauma, o estigma e a vergonha. Recuperar É Que Está A Dar 

Importante: Todos os dados são confidenciais. Sigilo total

quarta-feira, junho 18, 2014

Somos mais parecidos uns com os outros do que aquilo que imaginamos


Todos nós temos problemas. Todos nós temos uma história para contar e a dada altura precisamos de ajuda. Porque é que possuímos a tendência excessiva para culpar o outro? Creio que existe uma tendência para avaliar e criticar o outro recorrendo a generalizações demagógicas e a padrões – preconceitos disfuncionais acompanhado de uma falsa sensação de moralismo e de inimputabilidade, em vez de, avaliar o contexto em que o individuo está inserido e investirmos naquilo que considero essencial nos relacionamentos, refiro-me à EMPATIA. É através da relação com o outro que adquirimos consciência de nós próprios. " De perto ninguém é normal."

As pessoas mais felizes gostam de pessoas. São nos detalhes que nos é revelado a essência da personalidade das pessoas.

sábado, junho 07, 2014

Desligue o complicómetro


Meditação do dia: Oportunidades e pessoas significativas. Não dê ouvidos às crenças e pensamentos negativos que o/a puxam para baixo, que o/a desvalorizam, que o/a distanciam de pessoas importantes, que antecipam cenários catastróficos. Esses pensamentos negativos são o ego orgulhoso dorido e a vergonha tóxica, que o impedem de ser vulnerável e honesto/a com os sentimentos e que visam reforçam o isolamento e a rejeição. Renove a coragem nos critérios necessários a fim de ser honesto/a, explore novas oportunidades para viver uma vida plena, reforce os vínculos de intimidade e de confiança com as pessoas significativas.
Desligue o complicometro! Seja autentico/a, o mais possível, em vez de uma miragem! As pessoas mais felizes gostam de pessoas!

Nota: Esta publicação é publicada semanalmente no Facebook, designada de meditação e não serve para fornecer respostas, mas para proporcionar discernimento, motivação e resiliência na selecção das opções e no rumo do devir. É exclusiva e fruto da minha experiencia profissional de duas décadas.

sexta-feira, maio 30, 2014

Há palavras que mudam as pessoas


É através da palavra que expressamos os pensamentos e os sentimentos. É através da palavra que comunicamos as nossas necessidades uns com os outros.
A palavra é uma ferramenta que utilizamos para enaltecer e legitimar, mas também se pode transformar numa arma para humilhar e ofender.
- Quais são as palavras que normalmente, você utiliza para se valorizar? Considera que também utiliza as mesmas palavras para valorizar as pessoas significativas?
- Quais são as palavras que normalmente, você utiliza para se criticar? É uma critica construtiva ou o oposto? Considera que também utiliza as mesmas palavras para criticar o outro?

No dia-a-dia, monitorize o efeito das seguintes palavras no seu desenvolvimento pessoal:
"Sou estúpido/a",
"Sou feio/a",
"Não sou boa pessoa",
"Não presto para nada",
"Não sou capaz"
“Eu devia…”
“Eu tenho…”. 
Pare de usar estas palavras contra si. Pode estar a criar, na sua mente, uma ideia disfuncional (pensamentos automáticos negativos), de algo que não tem valor.


Mude as suas palavras e mude o seu mundo interior

sábado, maio 24, 2014

Consumo, abuso e dependência. Sabia que ...


- De acordo com estimativas das Nações Unidas existem mais de 10 milhões de pessoas dependentes de heroína no mundo. Em cada 1.000 consumidores de heroína, 2,6 irão morrer. Por exemplo, de overdose. A heroína é uma substancia psicoactiva extremamente adictiva.

- Sabia que o consumo de crack é considerado das drogas ilícitas a mais adictiva. O consumo do crack está associado ao crime.

- Sabia que o álcool é um depressor do sistema nervoso central. Alguns indivíduos com problemas associados ao álcool apresentam sinais e sintomas de depressão major; ideação suicida, tristeza, desânimo, insónia, ansiedade, perda de apetite, fadiga.

- Sabia que o abuso de drogas, incluindo o álcool e algumas drogas sujeitas a prescrição medica, pode distorcer a percepção da realidade. As pessoas podem revelar-se irracionais, excêntricas e excessivamente desinibidas. Em alguns casos, podem revelar-se violentas.

- A dependência de drogas, incluindo o álcool e algumas drogas sujeitas a prescrição medica, afecta todo o tipo de pessoas, independentemente do seu estatuto social; por exemplo; estudante universitário, medico, mecânico, engenheiro, canalizador, policia, advogado, economista, advogado, senhora idosa, contabilista, bancário etc.

- Sabia que associado ao abuso e à dependência de drogas, incluindo o alcool e algumas drogas sujeitas a prescrição medica, o individuo é sujeito a uma oscilação acentuada das suas emoções que podem variar entre o ódio e a euforia, do entusiasmo à apatia. Por exemplo, é frequente o individuo dependente estar triste e consumir drogas proporcionando a si mesmo uma falsa sensação de felicidade.

- Sabia que no inicio do consumo de drogas ilícitas, estas intensificam a actividade; mais concentração, mais desinibição, bem-estar e alivio. Na dependência as drogas suprimem a actividade; menos concentração e perda de memória, mais desadequação e constrangimento, desconforto físico e psicológico.

- Os custos humanos e económicos associados à dependência de drogas, incluindo o álcool e algumas drogas sujeitas a prescrição médica, são elevadíssimos e dramáticos. O tratamento é um investimento cujo retorno pode revelar-se recompensador.

- Existe o mito que se deve desresponsabilizar o individuo dependente de certos comportamentos disfuncionais, associados à adicção de drogas ilícitas e/ou álcool. Na realidade, apesar de a adicção ser uma doença, o individuo deve ser responsabilizado por comportamentos que possam por em causa a sua saúde e a vida das outras pessoas.


segunda-feira, maio 19, 2014

Parar de comer compulsivamente



A minha história começa como tantas outras. Sempre fui uma criança gordinha, mas nunca obesa, o que não me preocupava nada, até ao dia em que alguém verbalizou que eu estava gorda e precisava de perder peso. Não sei quem foi, nem quando. Só sei que me marcou profundamente. De repente, eu era diferente dos outros. Tinha peso a mais, tinha de o perder e, pior ainda, tinha de deixar de comer para o conseguir.

A partir desse momento, parecia que estava sempre alguém à espreita, pronto a apontar o dedo e a lançar um olhar reprovador, cada vez que metia um pedaço de bolo à boca. Desde então, o dedo acusador passou a estar presente em todos os momentos que houvesse comida e eu a desejasse comer.

Como criança pensei que a solução passava por comer às escondidas. Se ninguém vir o que como, é como se não acontecesse, ninguém me pode acusar ou lançar olhares reprovadores… Foi assim que aprendi a comer às escondidas. Nesses momentos, era só a comida e eu, a minha nova melhor amiga. O prazer foi crescendo, à medida que criava um mundo secreto, só meu.

Com a entrada na adolescência a situação agravou-se e o aumento de peso tornou-se evidente. A primeira reacção foi fazer de conta e evitar os espelhos. O que não se vê, não existe… Os comentários continuaram e ajudaram a que comesse cada vez mais, numa espécie de espiral compulsiva. Evitava comer em público.

Aos 18 anos, levaram-me ao médico e fiz a minha primeira dieta. Segui à risca o que me disseram, mediante a promessa de perder peso. Em seis meses, perdi 20 quilos. A minha vida mudou. De repente, o mundo olhava-me com outros olhos, ou pelo menos, assim os sentia… vieram os elogios, os convites e, de repente, tudo me servia e assentava bem. Tive o meu primeiro namorado a sério.

quarta-feira, maio 14, 2014

Sensações fantásticas, mas com consequências dramáticas


Paradoxo: sensações fantásticas, com base no prazer imediato, mas com consequências dramáticas, a médio e a longo prazo.
Durante as minhas deambulações pelo espaço virtual, seleccionei esta fotografia da qual desconheço o seu autor, atraiu a minha atenção, principalmente, pelo conteúdo das palavras, reflectem uma constatação sobre a complexidade do consumo, do abuso e da dependência de substâncias psicoactivas do sistema nervoso central, vulgo drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas.
O ser humano, ao longo da sua evolução e há milhares anos, sempre consumiu e irá continuar a consumir drogas, por inúmeras razões; rituais, tradições, sensações, tendências, etc. Em pleno seculo XXI o que é que aprendemos com o recurso e a utilização das drogas? Quais são os ensinamentos que retiramos dos benefícios e as desvantagens sobre o consumo de drogas?
O consumo de drogas, sejam elas quais forem lícitas e/ou ilícitas, proporcionam sensações e experiências fantásticas ao ser humano, de tal forma que existem drogas para todo o tipo de preferências e gosto. Obviamente, que excluo as drogas (medicação) sujeitas a receita médica.

Todos nós, procuramos sensações que nos permitam experimentar o transcendente, o alívio e o bem estar, o misterioso ou desafiar o perigo, como um jogo que procuramos jogar recorrendo às nossas próprias regras, às tradições, rituais e talentos. Todavia, não somos todos iguais, existem limites e regras, quando são ultrapassados e/ou quebradas, tal como acontece com as regras do sociedade em que vivemos, inevitavelmente sofremos o impacto negativo e as suas consequências. Esta questão aplica-se a praticamente a tudo na vida, visto também precisarmos de regras para ser livres e felizes. Quanto às consequências do consumo frequente de drogas, refiro-me inevitavelmente ao abuso e à dependência de drogas (doença) com os danos trágicos que todos nós conhecemos, directa e/ou indirectamente.

Somos livres em procurar as sensações e as experiências que acrescentem valor e significado no rumo da vida, mas é preciso assumir a responsabilidade pelas opções e decisões que seleccionamos a fim de vivermos uma vida plena.

Com isto quero somente dizer que as drogas proporcionam sensações extraordinárias, mas na realidade, não funcionam quanto a resolver problemas existenciais, familiares e profissionais.

sábado, maio 03, 2014

Dia-a-dia na recuperação das dependências


Apresento alguns excertos das pessoas, que diariamente procuram a motivação necessária, a fim de recuperarem a dignidade, a estima e a esperança num mundo em constante mudança. Todos nós, estamos expostos e vulneráveis às mais diversas condições adversas e ao invés de ser a adversidade a definir o rumo das nossas vidas, pelo contrário, somos nós seres fantásticos e resilientes que decidimos romper com aquilo que nos prende à dor e ao sofrimento.

No aconselhamento, as pessoas são o mais importante: os seus falhanços são os meus falhanços e os seus sucessos também são os meus sucessos. Ambos partilhamos esta aventura, porque o aconselhamento só é eficiente se o/a terapeuta e o cliente estiverem em sintonia,  na relação terapêutica de confiança, com o mesmo propósito - recuperação.

Importante: Todos os dados foram alterados de forma a proteger a identidade das pessoas e qualquer semelhança é pura coincidência. 

- Durante a consulta com a Natália, 39 anos (nome fictício – dependência emocional), abordamos a questão da intimidade nos relacionamentos românticos de compromisso: a química do amor (êxtase e o desassossego, vulgo paixão) e o amor duradouro (intimidade e o compromisso). Ela afirmava, com legitimidade, que a fim de manter o relacionamento duradouro é necessário haver entre os parceiros tempo para amar, sem este tempo a relação pode deteriorar-se.
Nota: Sabia que a novidade e o inesperado, por exemplo, quebrar a rotina e fazer coisas fora do comum, mantêm o amor duradouro. Não me estou a referir à paixão

- Durante a consulta com o Daniel, 25 anos (nome fictício – problemas com o Jogo), abordamos alguns factores que contribuem para o jogo compulsivo; 1. Jogar (curiosidade, correr riscos e o perigo inerente das apostas). 2. Gestão de sentimentos desconfortáveis, quebrar o tédio, a ansiedade e o aborrecimento 3. Recompensa (prazer intenso) e oscilações bruscas do humor.
Nota: Sabia que ganhar dinheiro não é o mais importante? O mais importante é jogar e apostar.

- Durante a consulta com a Anita, 38 anos (nome fictício – problemas com o álcool) e os seus pais abordamos os problemas associados ao álcool e o estigma social. A vergonha de expor o problema e pedir ajuda é tão doloroso que optaram por negar as evidências e as consequências negativas. Durante 10 anos não se falou sobre o assunto, inclusive, com outros membros da família. Afirmaram "Sentíamos que ninguém nos compreendia, pelo contrário, conscientemente, optamos pelo silêncio e pelo isolamento."
Nota: Sabia que o álcool é uma droga e que o alcoolismo é um problema de saúde publica?

sábado, abril 12, 2014

Você sabia que é possível recuperar das dependências?



Sabia que:
O individuo dependente de drogas, incluindo o álcool, gradualmente sofre alterações neurobiológicas, associado às estruturas do cérebro responsáveis pela recompensa e prazer como consequência do consumo frequente de substâncias psicoactivas. Estas alterações são responsáveis pelo craving (vontade irresistível e intensa em voltar a consumir a droga de escolha) incapacitando o individuo de se manter abstinente.
Muitos indivíduos dependentes de drogas, incluindo o álcool, tentaram inúmeras vezes interromper e parar o abuso das substâncias psicoactivas do Sistema Nervoso Central, que podemos designar «tentativas caseiras» sem apoio profissional. Alguns são bem sucedidos, outros não, todavia segundo alguns estudos nos EUA, revelam que a grande maioria dos indivíduos que fizeram essas tentativas (caseiras) não conseguiram permanecer em abstinência durante longos períodos de tempo.
Um dos sintomas mais comuns associado ao abuso e à dependência de drogas, incluindo o álcool, e o jogo é:
1. Drogas: continuar a usar e a justificar apesar das consequências negativas, "É só mais uma vez..." 
2. Álcool: continuar a beber e a justificar, apesar das consequências negativas, "É só mais um copo..."
3. Jogo: continuar a jogar e a justificar o comportamento problemático apesar das consequências negativas, "Vou jogar mais uma vez para recuperar o dinheiro perdido."

Enquanto a dependência das substâncias psicoactivas e/ou do comportamento não forem contempladas no tratamento a tendência é para que os sintomas se agravem cada vez mais. Segundo a Associação Americana da Medicina da Adicção a adicção é uma doença crónica.

Sabia que a dependência de drogas, incluindo o álcool, afecta as competências cognitivas do individuo. Uma das mais comuns identificadas em dependentes é o pensamento rígido - "tudo ou nada". Algumas afirmações mais comuns por indivíduos dependentes: "Se não for à minha maneira, não quero." ou "Eu é que sei, sou assim e ninguém tem nada com isso." ou "Como não sou capaz de deixar o vicio das drogas/do álcool, sou um falhado."

Um dos mitos sobre o consumo de cocaína, está associado à inexistência da dependência física desta substância psicoactiva, isto é, as pessoas pensam erradamente, visto não existirem sintomas físicos, não ficar dependentes. Na verdade, de acordo com a minha experiência profissional, o consumo de cocaína, numa perspectiva social, pode estar na origem de vários problemas, e em ultimo caso, na dependência.


Quando a família se confronta com um dos membros, com problemas de drogas ilícitas e/ou jogo, sofre um grande choque, pode ser de tal forma traumático, que a tendência pode ser negar as evidencias. Todavia, negar não é a abordagem mais apropriada. Qual será a abordagem mais eficiente? Se pretende saber a resposta a esta questão envie um email para xx.joao@gmail.com

sexta-feira, março 28, 2014

Como é que posso mudar o meu parceiro?



Relacionamentos de intimidade e a adicção: Como é que posso mudar o meu parceiro que está doente? Não pode, mas pode mudar o seu comportamento e as dinâmicas da relação.

Ao contrário daquilo que se pode pensar, a maior grande parte dos indivíduos dependentes de substâncias psicoactivas, lícitas e/ou ilícitas, vulgo drogas, ou comportamentos adictivos, por exemplo, jogadores compulsivos e adictos ao sexo não são pessoas que vivem isolados da sociedade, não são sem-abrigo, não estão todos hospitalizados ou internados em centros de tratamento, pelo contrário, têm as suas esposas/maridos, famílias e filhos, carreiras profissionais, e apesar do estigma e da negação, são indivíduos activos no trabalho e mais ou menos integrados na sociedade. Por falta de informação sobre a adicção e o impacto na família e na comunidade (sociedade) temos a tendência para negar as evidências; as coisas têm o valor que nós decidimos que elas tenham.

São homens e mulheres adictos que têm os seus parceiros; namorados/as ou esposas/maridos. Na maioria dos casos, as esposas/maridos e/ou namorados/as sabem da existência do problema no parceiro/a, ou pelo menos, apesar de falta de conhecimento ou informação, têm a consciência de que algo não está bem e que é preciso mudar. Infelizmente, devido à complexidade dos relacionamentos e da adicção não sabem como faze-lo, por causa de vários factores. Um deles é gerarem vínculos que reforçam os seus papéis de zeladores e cuidadores. Isto é, assumem o poder e a responsabilidade de zelar pelo parceiro/a. Eles e elas adaptam as suas rotinas do dia-a-dia às vicissitudes e à adversidade (comportamento problema) relacionada com o impacto da adicção na relação, vivendo num estado eminente de ambivalência, alerta e preocupação. Afinal, no universo das relações, quem é que não tem problemas sobre o comportamento do marido? Da esposa? Do namorado? Da namorada? Todos nós. Contudo, nesta situação especifica da adicção, o problema, para além de se agravar e afectar gravemente os afectos, paradoxalmente, também pode ser atenuado, compreendido e/ou resolvido. A questão é: Como.

sábado, março 15, 2014

O «Vicio» de drogas, incluindo o álcool, é uma doença; não é uma escolha individual.


10 Questões importantes para reflectir sobre as dependências de drogas, incluindo o álcool, e o jogo patológico.

1. De acordo com estimativas das Nações Unidas (United Nations Office on Drugs and Crime - UNODC) existem mais de 10 milhões de pessoas dependentes de heroína no mundo. Em cada 1.000 consumidores de heroína, 2,6 morrem, por exemplo, de overdose. A heroína é uma substancia psicoactiva extremamente adictiva.

2. Sabia que o abuso de drogas, incluindo o álcool, distorce a percepção da realidade. As pessoas podem revelar-se irracionais, excêntricas e excessivamente desinibidas. Em alguns casos, podem revelar-se violentas.

3. Associado ao abuso e à dependência de drogas, incluindo o álcool, o individuo é sujeito à oscilação acentuada das suas emoções que podem variar entre o ódio e a euforia, do entusiasmo à apatia. Por exemplo, é frequente o individuo dependente, estar triste e apático, e ao consumir drogas, incluindo o álcool, proporciona a si mesmo uma sensação de felicidade, apesar de ser efémera.

4. Para um individuo dependente de drogas, incluindo o álcool, e o jogo patológico revela-se extremamente difícil ter a percepção sobre os efeitos e as consequências negativas dos seus comportamentos. A dependência é a causadora da maioria dos fracassos e da frustração tornando assim a vida insuportável e em alguns casos mais extremos pode revelar-se caótica. Quanto mais dificuldades, maior será a necessidade de recorrer ao comportamento problemático associado às dependências – abusar de drogas, incluindo o álcool, e/ou o jogo patológico.

5. No início do consumo de drogas ilícitas, estas intensificam a actividade; mais concentração, mais desinibição, bem-estar e alívio. Gradualmente, na dependência as drogas suprimem a actividade; menos concentração e perda de memória, mais desadequação e constrangimento, desconforto físico e psicológico.

6, Dependência de drogas incluindo o álcool.
Você sofre da síndrome de abstinência, vulgo ressaca?
Os sintomas de ressaca surgem quando o individuo abusa das substâncias psicoactivas, do sistema nervoso central até à intoxicação. Os sintomas da ressaca estão associados à frequência, à intensidade e à duração do abuso das drogas, incluindo o álcool.

7. Benzodiazepinas: medicamentos tranquilizantes e/ou ansiolíticos sujeitos a receita medica. São substâncias que geram dependência física e psíquica. Caso o abuso seja continuado, a interrupção abrupta representa um risco grave para a saúde. Algumas pessoas dependentes de benzodiazepinas são também dependentes de álcool e/ou outras drogas ilícitas (adicção cruzada) - uso concomitante de substâncias.

8. Sabe o que são os analgésicos? São drogas poderosas que interferem com a transmissão de sinais eléctricos do sistema nervoso central pela qual entendemos e percebemos a dor. A maioria dos analgésicos estimula as partes do cérebro associadas ao prazer. Se toma medicação siga a prescrição do seu médico. Não faça auto medicação.

9. Alguns efeitos do abuso do álcool e/ou dependência: descoordenação motora, perda da concentração e da memória, danos cerebrais, depressão e doenças do fígado (cancro). O abuso do álcool e a dependência afectam seriamente as relações pessoais; família, trabalho, sociais.


10. A dependência de drogas, incluindo o álcool, e o jogo afectam seriamente o desempenho e os relacionamentos profissionais; abstenção laboral, perda de memória e concentração, negligencia, falta de ética profissional, conflitos com colegas e entidade patronal.

sexta-feira, março 07, 2014

O jogo problemático é um problema de saúde publica



Este artigo foi publicado no Jornal de Negócios (17 de Fevereiro de 2014) e está disponível só para assinantes online , nesse sentido, disponibilizo-o para si que é seguidor do blogue Recuperar é que está a dar. 

Jornal de Negócios: Nos últimos anos, o volume de jogos de fortuna e azar e apostas desportivas foram aumentando quer em locais físicos, mas como através da Internet. Esse crescimento foi acompanhado pelo registo de incremento de pessoas com adicção de jogo?
O incremento de pessoas com adicção ao jogo e o jogo patológico, através da Internet tem sido exponencial. Por exemplo, no final dos anos 90 a maioria dos indivíduos adictos ao jogo, em casinos, eram adultos na casa dos 40 e dos 50 anos. Hoje em dia através do acesso online, chegam às consultas indivíduos com problemas associados ao jogo com idades entre os 24 e os 30 anos. Todavia, isso não quer dizer que todos sejam adictos ao jogo, isto é, alguns são indivíduos com problemas associados ao jogo que varia entre moderado e grave. Na sua pergunta refere adicção, nesse sentido, importa saber o que é a adicção. A adicção afecta a saúde do indivíduo, os vínculos familiares, incluindo das crianças, o desempenho profissional e a qualidade de vida. Ser adicto não é uma escolha pessoal. Ao longo de vinte anos de experiência profissional, na área da adicção, nunca ouvi nenhum individuo afirmar que escolheu ser adicto. Não é um acto voluntário, o individuo perde o controlo, a compulsividade, o craving (desejo intenso e irracional pela actividade) e continuação do comportamento apesar das consequências negativas. A Sociedade Americana da Medicina da Adicção define a adicção como uma doença primária, crónica que interfere e afecta o sistema/estrutura do cérebro responsável pelo prazer e recompensa, pela motivação e memoria e os circuitos neuronais adjacentes. Sabemos que uma alteração e disfunção destes circuitos neuronais conduzem ao aparecimento de sintomas a nível biológico, psicológico, social e espiritual no indivíduo, que se reflectem na busca e recompensa patológica do prazer. Por outras palavras, a adicção funciona como uma “almofada” perante determinadas situações e adversidades ao longo da vida do indivíduo. Este fenómeno repete-se com a adicção às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, as ilícitas, vulgo drogas, com o jogo, o sexo, as compras, o furto. A fim de ficar esclarecido existe um critério que identifica o jogo problemático (moderado a severo) e um critério para a adicção (doença primária e crónica). A adicção não é um vírus.  
Segundo estudos (American Medical Association, EUA, 2000) existem factores genéticos em comum entre os indivíduos jogadores patológicos do sexo masculino e o álcool. Todavia, também gostaria de referir que nas últimas duas décadas, com os avanços tecnológicos e a investigação, principalmente nos EUA e Canadá, ainda estamos a aprender sobre o que é a adicção; as causas, a identificar aqueles indivíduos mais vulneráveis e os tratamentos disponíveis mais adequados.

Jornal de Negócios: É possível traçar o perfil do jogador compulsivo?
Segundo uma investigação no Canadá, os indivíduos com problemas associados ao jogo compulsivo (patológico) apresentam quatro vezes mais probabilidades de serem diagnosticados com doença mental, relacionado com perturbação do humor e ansiedade, do que os indivíduos não jogadores. A actividade associada ao jogo começam na adolescência, com mais prevalência no sexo masculino do que no sexo feminino.
Na minha experiência profissional o perfil do individuo jogador compulsivo oscila entre os 24 e os 56 anos. Sexo masculino, classe media/alta, licenciados com carreiras profissionais estáveis, trabalham em excesso, têm dívidas, gostam de quebrar regras e correr riscos, são impulsivos e egocêntricos. Acreditam que o dinheiro é a causa e/ou a solução para os seus problemas. Alguns deles afirmam, em situações de desespero, ideações e tentativas de suicídio. Alguns destes indivíduos são oriundos de famílias desestruturadas com problemas de álcool, jogo e violência doméstica.    

Jornal de Negócios: As autoridades estão despertas para fiscalizar a multiplicidade de jogos disponíveis?
Na minha opinião, as autoridades estão conscientes deste fenómeno, mas ainda não existe vontade politica para mudar esta realidade associada aos problemas do jogo. Posso dar um exemplo, na última semana, todos os meios de comunicação social e redes sociais, faziam referência à morte do actor galardoado de Hollywood, Philipe Seymour Hoffman por overdose de drogas ilícitas. Se pensarmos em indivíduos com problemas de jogo, não me recordo de nenhum caso, de figura publica, quer seja estrangeiro ou português que tenha sido noticia. Todavia, quando surgem notícias relacionadas com indivíduos e o jogo patológico, o destaque é direccionado para actividades ilegais, dívidas, burlas, tribunais, são, erradamente, considerados casos de polícia. As pessoas são presas e estigmatizadas. Não recebem o devido tratamento.
Persiste o estigma, a vergonha e a negação. Actualmente, a indústria do Jogo é um negócio de muitos milhares de euros. Em Portugal, o jogo é um problema de saúde pública que ainda permanece obscuro e por avaliar os seus efeitos e consequências. É preciso vontade política.
Entre 01 de janeiro e 30 de novembro de 2013 foram gastos em apostas 854,9 milhões de euros no Euromilhões, em dez anos os portugueses gastaram nove mil milhões. Nos primeiros três meses de 2013 os portugueses gastaram 101 milhões de euros em raspadinhas. Segundo um estudo conduzido pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, a raspadinha é o terceiro jogo pelo qual a população, entre os 15 e os 74 anos, revelou ter maior dependência. Falta saber os valores e o impacto das lotarias, nos casinos, bingos, e jogos ilegais, nos cafés e bares das aldeias de norte a sul do país.
   
Jornal de Negócios: Quais os perigos do jogo online? A adicção apresenta-se de forma diferente?
Segundo a minha experiência profissional, os perigos do jogo online são insidiosos e complexo visto haver da parte do jogador patológico, acesso ilimitado à Internet, independentemente da hora, do local, do dispositivo (computador, telemóvel, tablet). Conheço casos de indivíduos, quando chegam ao local de trabalho, ligam o computador, e imediatamente começam a jogar ou a consultar os sites de apostas ou poker ou mercado de valores, e assim permanecem, em segredo, sem conhecimento dos seus colegas e/ou entidade patronal, até ao final do dia. Obviamente, este tipo de actividade compromete seriamente o desempenho do trabalhador. Também utilizam os smartphones e os tablets para continuar a jogar/apostar em casa no final do dia de trabalho. Afirmam «É uma forma prazerosa de descontrair e relaxar, depois de um dia stress no trabalho». Negligenciam a relação com a sua parceira, com os filhos e/ou outro tipo de actividades sociais. Na maioria dos casos, a família desconhece ou permanece ignorante quanto às consequências reais do jogo. Alguns indivíduos permanecem «ligados» às actividades associadas ao jogo durante 12 a 14 horas diárias. Gradualmente vai aumentando a actividade associada ao jogo/apostas por longos períodos com incremento da frequência, da intensidade e da duração. Quanto maior a exposição à actividade associada ao jogo/apostas, maior o risco de desenvolver a adicção.

Jornal de Negócios: Como é possível “investigar” este tipo de adicção?
É preciso um plano nacional que vise erradicar e/ou atenuar o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. Existem mitos e preconceitos que visam discriminar o individuo adicto e a sua família. Segundo relatos das famílias, que pedem ajuda nas consultas, afirmam “Quando soubemos do problema do jogo do meu filho, decidimos ocultar de toda a gente, incluindo a família mais próxima e tentamos resolver o problema em casa. Mais tarde, reconhecemos que foi o pior que podíamos ter feito, porque ao invés de melhorar, ainda agravou mais, com a agravante de ter dividido a relação entre o eu e o meu marido. No fundo, sentimos imensa vergonha, porque nunca imaginamos que o meu filho pudesse ter um problema desta natureza. Levamos algum tempo até aceitar que aquilo que fazíamos para ajudar, só piorava. Hoje admito, como mãe, que sinto imensa vergonha do problema do meu filho. Só sabe o mal que isto é, quem passa por elas.” 
Em Portugal, a investigação ainda está numa fase embrionária, apesar de haver alguns profissionais dedicados ao estudo do jogo patológico, onde destaco o trabalho do Dr. Pedro Hubert. Para além da investigação, são necessários profissionais que assumam o compromisso, isto é, que dediquem a uma parte significativa das suas carreiras à formação continua, à investigação, à partilha de conhecimentos, experiencias e criarem-se equipas pluridisciplinares que se dediquem exclusivamente ao tratamento e recuperação dos comportamentos adictivos, e do jogo em particular. É necessário mobilizar a comunidade, em particular, e a sociedade, em geral para este tipo de fenómenos emergentes e transversais. Qualquer pessoa está exposta e vulnerável. Aquelas pessoas que consideram que a adicção só acontece aos outros, são provavelmente aquelas que apresentam mais factores de risco.

Quais são os custos do jogo patológico que representam para os cofres do estado? Em termos de comparação os custos do álcool representam 200 milhões de euros. Os custos do tabaco representam 500 milhões de euros.

Se houver, da parte dos decisores políticos, dos meios de comunicação social, legislação, um plano nacional de prevenção e tratamento como está acontecer com o tabaco, creio estarem criadas as condições para haver mais pessoas informadas, profissionais e instituições dedicadas ao tratamento. Como resultado, destes esforços, nos últimos anos, o número de pessoas que procurou ajuda para interromper a adicção ao tabaco. aumentou significativamente.

Jornal de Negócios: Quais os perigos da publicidade relacionada com o jogo?
O mesmo fenómeno repete-se com o álcool, com o tabaco e também com o jogo. Apesar de haver mudanças nos paradigmas sobre o tabaco, em relação ao resto, as leis existentes ainda são permissíveis e não existem instituições credíveis independentes que monitorizem o marketing agressivo e a publicidade associada aos comportamentos adictivos. Isto é, o problema não são as substâncias psicoactivas lícitas e/ou o jogo, o real problema são as pessoas. Algumas pessoas conseguem consumir drogas, beber bebidas alcoólicas e/ou jogar socialmente sem que isso represente um problema para as suas vidas, todavia, enquanto outras, felizmente em menor numero, apresentam um risco maior. Tal como referi, no inicio, infelizmente existem muitos casos de pessoas que faleceram como consequência da adicção às substâncias psicoactivas, nos últimos anos, só para enumerar alguns, Michael Jackson, Amy Whinehouse, James Gandolfini,  Witney Houston e Philipe Seymour Hoffman. Segundo as Nações Unidas estimam-se que 160 mil milhões de dólares oriundos do tráfico de drogas, anualmente, sejam lavados na banca internacional. O fenómeno é idêntico com o jogo legal e ilegal. Os lucros astronómicos, os interesses financeiros e económicos estão acima dos direitos das pessoas. Apesar de sabermos que entre indivíduos com problemas de jogo o número de suicídio é elevado e os custos para o estado elevadíssimos, todavia, esta realidade ainda é negligenciada. Parte dos lucros da indústria do jogo deviam ser revertidos para a investigação e o apoio no tratamento do jogo.

Jornal de Negócios: Quais são as principais tendências de futuro?
Após duas décadas a trabalhar na área dos comportamentos adictivos as tendências destes fenómenos relacionados com a natureza humana, são para se manterem. Estamos vulneráveis perante a dor e conseguimos convencer-nos que conseguimos ludibria-la recorrendo a estratégias e mecanismos cuja finalidade é o prazer imediato. No outro lado deste fenómeno, felizmente, também existem muitos casos de pessoas que recorreram à ajuda profissional ou através dos grupos de ajuda mútua dos 12 Passos (Jogadores Anónimos) que conseguiram ultrapassar a adversidade. Da mesma forma, que se estudam as causas e os sintomas do jogo patológico, também é necessário estudar aquelas pessoas resilientes que permanecem em recuperação durante períodos duradouros. Essas pessoas são um recurso valiosíssimo para a comunidade. É preciso sensibilizar o público em geral, através de informação e haver uma participação cívica mais activa, em relação a estes temas. Participei num programa, numa escola sobre a prevenção das dependências, e foram enviados para a associação dos pais, centenas de convites, apareceram seis pais. Perante a negação e a passividade é preciso uma revolução nesta matéria. Os nossos filhos merecem que os adultos zelem pelos seus direitos a uma vida plena.

Para terminar, gostaria de publicar um email que recebi de uma pessoa adicta ao jogo, do Brasil, também podia ser portuguesa, enquanto escrevia este artigo, a pedir-me ajuda.  
«Chamo-me Adélia. Li o seu blogue e a minha pergunta é a seguinte. Estava viciada em jogo de bingo (vídeo) naquele nível de pensar em suicídio, de jogar o dia inteiro e fazer ate xixi na máquina para não levantar e ir ao banheiro. Às custas de muito sofrimento e terapia estou à 1 ano e 2 meses sem jogar. Acho que é bom eu te contar como forma de estudares o meu caso. Como você sabe, a dependência das drogas é diferente do jogo, o corpo não tem contacto com drogas, mas tive abstinência terrível, tudo tudo mesmo, e só não tive convulsões. Felizmente, estou um pouco ou bem melhor. Queria saber porque é que ainda tenho depressão? Você acha que preciso de um anti depressivo ou vai melhorando sem remédio? Obrigada, fica com Deus, Adélia (nome fictício)»
Este tipo de problemas não acontece só aos outros. O silêncio não resolve, pelo contrário, a tendência é para se agravar. Lá porque não se vê, não quer dizer que não existe.


sábado, fevereiro 15, 2014

A adicção não é um vírus


A recuperação da adicção é um processo para o resto da vida.
Após as noticias recentes sobre o falecimento do actor de Hollywood,  Philipe Seymour Hoffman vítima de overdose de drogas ilícitas, intoxicação que ocorre quando  o individuo consome uma determinada quantidade de droga que os sistemas vitais do organismo são impedidos de funcionar adequadamente,   veio levantar a questão sobre a importância da abstinência, da recuperação da adicção e da recaída. 
Philipe Seymour Hoffman permaneceu abstinente durante 23 anos consecutivos. Se o actor faleceu aos 47 anos, fazendo as contas, parece ter iniciado a recuperação com 24 anos. Iniciar a recuperação com esta idade, por si só é um feito extraordinário, mas por outro lado, revela, desde cedo e ao longo do seu desenvolvimento, um individuo vulnerável (predisposição) aos efeitos e consequências da dependência de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, após duas décadas abstinente, paradoxalmente, recaiu e acabou por morrer de overdose. Não faleceu de cancro ou de doença cardíaca, mas vítima da adicção.

Já em meados de 2013, segundos os media norte americanos, Philipe S. Hoffman deu entrada num centro de tratamento para uma desintoxicação, durante dez dias, depois de ter recaído em heroína. Após ter completado o programa de desintoxicação, aparentemente parece ter voltado a frequentar as reuniões de Alcoólicos Anónimos (AA), note-se, já o fazia desde os 24 anos de idade, até 2014. Uma semana antes de morrer, foi à sua última reunião.

Este incidente, adquiriu um destaque mediático visto Philipe S. Hoffman, ser um actor galardoado com vários prémios, todavia, gostaria de transpor este caso para o cenário da dependência de drogas, da recuperação e da recaída em Portugal. Existem historias semelhantes de indivíduos adictos, em Portugal, que também permanecem períodos consideráveis abstinentes, em recuperação, mas que acabam, por um conjunto de motivos, reiniciar os consumos de substâncias psicoactivas, incluindo o álcool.
Como profissionais, quando nos deparamos com um individuo adicto a substâncias psicoactivas, vulgo drogas, devemos considerar a abstinência uma meta prioritária? A minha resposta é sim. Um individuo com um historial significativo de dependência (adicção) precisa de ajuda e recursos, a fim de repensar, sobre o seu estilo de vida e as drogas.

De acordo com a minha experiencia profissional, visto ainda não existirem estudos em Portugal sobre o tratamento, a recaída e a recuperação da adicção às drogas, o primeiro ano de abstinência é um período crucial, mas ao mesmo tempo critico para o individuo. A adicção às drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, interferem e comprometem o funcionamento e o desenvolvimento normal do cérebro – estruturas associadas ao prazer e recompensa, assim como a motivação, a memória e a capacidade de tomar decisões. A adicção, conforme vai evoluindo, gradualmente vai incapacitando o individuo de sentir, pensar (défices cognitivos) e tomar decisões saudáveis, ao mesmo tempo, vai deteriorando os vínculos entre as pessoas significativas; perda do controlo, síndrome da abstinência, problemas familiares e profissionais, tolerância às drogas, impotência associado ao sentimento de culpa e a vergonha, a negação e o estigma. Na perspectiva de um individuo adicto, a abstinência total de drogas é interpretada como uma privação radical, com custos psicológicos e sociais consideráveis, porque as substâncias psicoactivas, apesar das consequências negativas funcionam como uma almofada, um amortecedor, um «remédio» e representava um estilo de vida.

Generalizando, o consumo do álcool é encorajado na nossa cultura, somos seres sociais que utilizamos as bebidas alcoólicas com o intuito de «olear» a comunicação. Como profissionais, este tipo de paradigma poderá influenciar a nossa abordagem. Um individuo adicto fica incapaz de adoptar comportamentos saudáveis se consumir drogas, incluindo o álcool. Com muita frequência, escuto este tipo de comentários, entre indivíduos adictos em tratamento das drogas: «Abstinência total? O quê? Nunca mais vou usar drogas? Beber álcool? No verão… ao jantar entre amigos e beber um copo… fumar um charro de vez em quando?»  
Um individuo adicto, mesmo em recuperação por longos períodos, não consegue erradicar das suas memórias as sensações e experiências intensas de bem-estar e alivio que as drogas proporcionaram. Este estilo de vida, centrado nos efeitos das drogas, funcionava como um excelente antidoto de forma a gerir sentimentos desconfortáveis associados ao stress/tensão, ao tédio, à frustração originando uma sensação de despropósito em relação ao rumo da sua vida. A dependência psicológica das substâncias, não desaparece só porque o corpo está livre de drogas – lógica adictiva, exacerbado pelas características da personalidade. Costumo afirmar que viver dependente de drogas é uma ocupação, idêntica ao um emprego, que consome imenso tempo e energia, 24/24 horas, 7 dias por semana e 365 dias por ano. É o assunto mais importante e central na vida do individuo, mais importante até que a própria família, incluindo as crianças, a saúde, a carreira profissional, etc, etc.
Quais são os motivos que levam um individuo abstinente e em recuperação, durante 23 anos, a reiniciar o consumo? Após vários períodos duradouros em recuperação, alguns indivíduos decidem violar o voto da abstinência. Eis relatos que ouço, nas consultas:
  • “A minha vida está porreira, por isso, comecei a beber bebidas alcoólicas às refeições ou quando saio com amigos à noite. Nada de anormal.”
  • “Comecei a beber álcool, socialmente e tudo corria bem durante alguns anos, até ao dia que voltei a consumir a minha droga de escolha, (nestes casos pode ser heroína ou cocaína) e rapidamente a compulsão tomou conta de mim. Ao fim de umas semanas já estava outra vez agarrado às drogas.»
  • “Estive abstinente, durante 18 anos, a minha vida estava óptima, mas um dia, a relação com o meu marido acabou e decidi divorciar-me. Senti-me desesperada e sozinha com dois filhos nos braços. Perdi o sentido da minha vida, despertei para uma realidade que não estava preparada e a única solução foi reiniciar o consumo de drogas. Apesar de estar abstinente tanto tempo, soube onde me dirigir para comprar drogas, como consumir e decidi ocultar esta situação da minha família e no trabalho. Mais tarde, quando descobriram que andava a consumir drogas e alcool, foi uma tragédia…foi uma grande desilusão tão grande que nem consigo descrever.”
  • “Estive abstinente de drogas, durante 14 anos, adorava o meu trabalho, tinha uma excelente carreira profissional, um bom ordenado e era feliz. Um dia, de repente, fui despedido e fiquei no desemprego. Perdi qualidade de vida e senti-me injustiçado. Andei uma semana, cheio de pena de mim próprio, fiquei deprimido, não conseguia suportar a minha cabeça e estar com a família e amigos. Dormia até há hora do almoço e gerou-se, dentro de mim, uma sensação de inutilidade e impotência insuportável. Um dia, não sei explicar como, decidi começar a beber bebidas alcoólicas, e uns meses depois reiniciei o consumo nas drogas.”
  • “Estive abstinente de drogas, incluindo o álcool, durante 20 anos, criei uma empresa e um projecto de vida. Era um sonho tornado realidade, depois do inferno que passei com a adicção às drogas. Decidi reconstruir a minha dignidade e a auto estima. As pessoas de família começaram a acreditar em mim, inclusive o meu pai, ajudou-me financeiramente para avançar com o meu projecto profissional. Depois de iniciar a empresa, não pensava noutra coisa, que consistia em obter reconhecimento e a concretização de um sonho de infância. Passados 18 anos, trabalhava 12 a 14 horas, não dormia, andava ansioso e sempre em stress, só pensava em ganhar dinheiro. Sabia que para ter sucesso precisava de produzir, ganhar mais dinheiro, manter o estatuto e dar o meu melhor. Vivia única e exclusivamente para o trabalho. Um dia, fui parar, às urgências do hospital, deprimido e com ataques de pânico. Este episódio, veio alertar-me para a minha incapacidade, de gerir o negocio e ganhar mais dinheiro, sabia como atenuar a angustia, a depressão e a ansiedade. Reiniciei o consumo de bebidas alcoólicas, e passados 2 anos o consumo de cocaína, socialmente com amigos para me divertir e descomprimir, mais tarde, a heroína e os ansiolíticos.”

Para terminar, os indivíduos com um historial significativo de dependência (adicção) de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, lícitas incluindo o álcool e medicação prescrita pelo médico (do grupo das benzodiazepinas – por exemplo, os ansiolíticos) e as ilícitas devem considerar a abstinência uma regra. Tal como referi, estes indivíduos adictos desenvolveram uma predisposição, uma vulnerabilidade física e psicológica, ao contacto com drogas, que os colocam em risco de reiniciarem a adicção activa, que pode ser despoletada a qualquer altura, evento adverso e dor intensa, doença, etc, independentemente das suas vontades. Isto é, enquanto permanecerem abstinentes, a adicção permanece controlada; refiro-me á compulsão e à obsessão associado às drogas - ao prazer. De notar que, quando afirmo abstinência, refiro-me à «auto medicação», porque existem excepções, indivíduos adictos, em recuperação, precisam de medicação, e acima de tudo, acompanhamento profissional digno. Ao contrário, daquilo que algumas tendências e tradições disfuncionais da nossa cultura teimam em reforçar, é possível ter uma vida plena abstinente, sem drogas lícitas, incluindo o álcool, e as drogas ilícitas.

São necessários estudos inovadores, não me refiro somente às causas, aos sintomas da dependência das drogas, incluindo o álcool, mas aquelas pessoas, adictos e adictas, que após um historial de adicção activa, permanecem longos períodos em recuperação. Paralelamente, precisamos de contrariar o estigma, a negação e a vergonha. Ainda ouço, com frequência pessoas, e alguns profissionais, a afirmarem que os indivíduos em recuperação duradoura, são «ex drogados» ou «ex toxicodependentes». Quando não compreendemos determinados atitudes e comportamentos dos outros, a nossa tendência é para criticar, e em casos de ignorância, dizer mal. É necessário retirar os rótulos, desmistificar e corrigir certos paradigmas disfuncionais e profissionais desactualizados, revelarmos mais humildade e reconhecimento alheio, pensarmos «fora da caixa», a fim de compreendermos melhor quais são as competências e os recursos, que dotam estas pessoas fantásticas e resilientes perante o apelo (perpétuo) dos efeitos das drogas lícitas e/ou ilícitas. Eles e elas não estão imunes ou curados, porque a adicção não é um vírus, pelo contrário, investem na prevenção da recaída e consideram que a recuperação acrescenta significado e propósito ao rumo das suas vidas. Para todo o efeito, também são uma referência para a família, para comunidade e a sociedade, incluindo profissionais. Eles andam aí à espera que de serem chamados a participar no tratamento, na recuperação e na prevenção da recaída. Recuperar é que está a dar contra o estigma, a negação e a vergonha.


Philipe S. Hoffman, R.I.P. e as minhas condolências para a família. 

quarta-feira, janeiro 08, 2014

Dr. David J. Powell


1945 - 2013
Foi com imenso pesar e consternação que soube da noticia da morte do Dr. David Powell. Faleceu no dia 1 de Novembro de 2013, com 68 anos, na sua casa junto à sua família nos EUA.

O Dr. David J. Powell era licenciado em Filosofia, Mestre em Psicologia, Doutorado em Relações Humanas, Formador e Supervisor Clinico (Powell Blended Model  of Supervision, Presidente do International Center For Health Concerns, Presidente  do Clinical Supervision  Institute. Professor Assistente no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Medicina de Yale. Foi colaborador na área da supervisão em Instituições reputadas internacionalmente tais como; Hazelden, Betty Ford, Caron Foundation, Hanley Center, Gateway Rehabilitation. Foi pioneiro no Programa de Apoio a Empregados direccionado para empresas tais como;  Rolls Royce, IBM, The Trump Organization. Desenvolveu programas de supervisão para a Marinha dos EUA e para os Marines. Esteve envolvido em varios projectos, na área no tratamento da dependência química e alcoolismo, em alguns países da Asia e Europa. Nos últimos anos, colaborava com uma instituição para jovens dependentes químicos (drogas) na Turquia. Colaborava com varias revistas americanas para o tratamento e recuperação da dependência química e alcoolismo. Foi autor de vários livros, dos quais destaco “Clinical Supervision in Alcohol and Drug Abuse”. Era um defensor dos Doze Passos, dos Alcoólicos Anónimos, como recurso para a recuperação do individuo dependente, da sua família e uma mais valia para a comunidade/sociedade.

Certamente ficou imenso para dizer sobre o Dr David Powell, um distinto e ilustre profissional, mas gostaria de destacar a sua simplicidade como pessoa, com o qual tive o privilegio de conhecer. Um ser humano extraordinário.

Todos nós, profissionais e instituições, ligadas ao tratamento da adicção e da recuperação de drogas, incluindo o álcool, perdemos uma referência importante, todavia, o seu conhecimento e sabedoria irá permanecer vivo no coração daqueles que, em conjunto com ele, partilham a mesma paixão. O Dr. Powel ensinou-me o seguinte; «Para se ser um profissional competente no tratamento da adicção é preciso faze-lo com paixão, profissionalismo e ética». O meu profundo e sentido bem-haja.