sábado, outubro 20, 2007

Perdoar vs. Ressentir



Perdoar é um factor imprescindível nas relações significativas que são afectadas pelas consequências negativas da adicção activa (ex. família ).
Um dia ouvi alguém afirmar que o ressentimento é um dos bloqueios à espiritualidade (não religioso sem dogmas e divindades) da recuperação da adicção (substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o alcool, as ilícitas, o jogo, e sexo, o disturbio alimentar, relacionamento de dependencia - codependendencia, o shopaholics - compras, shoplifting - furto). O ressentimento é como uma “ferida aberta" interna que afecta o discernimento (consciência), capacidade de ser responsável, honesto e de tomar decisões positivas que proporcionem qualidade de vida. Turvam a nossa visão da reconciliação do presente e do futuro.

È do conhecimento geral que a adicção activa implica sofrimento e afecta significativamente os vínculos entre as pessoas; "enfraquece-as". Sabemos que durante a adicção activa, directa ou indirectamente, TODOS sofrem os efeitos das consequências negativas. O equilibrio das relações é colocado em causa, assim como os papeis e os limites tornam-se disfuncionais e desestruturados. Afecta a comunicação e as pessoas magoam-se mutuamente . O ambiente familiar degrada-se e a confiança desaparece dando lugar á desconfiança, ao medo à raiva e ressentimento, à vergonha e à culpa. Numa fase avançada da adicção activa toda a família fica doente, passa a ser uma doença de família. Utilizando a metáfora da fruteira; “Se uma maça apodrece, passados uns dias todas as outras maçãs ficam podres.” Participei em inúmeros programas direccionados para a família e ouvi esta expressão vezes sem conta.

O meu objectivo com este post não é reforçar a culpa, pelo contrario, afirmando que alguém seja 100 por cento perfeito, no processo de perdoar. Como humanos podemos faze-lo atraves de um processo de avanços e recuos. È isto que é indispensável para aqueles que estão em abstinência / recuperação, assim como para os membros de família.



O processo de perdoar nas relações é inconstante.
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. Se o processo de perdoar não for iniciado outras áreas ficam imobilizas. O perdoar não é um sintoma de outra coisa; é primário e necessita de ser encarado em recuperação (claro, que o ressentimentos não pode ser apagado por uma "esponja” todavia é fundamental que se trabalhe nesse sentido/recuperação).

2. O perdoar pode ser encarado como um alternativa construtiva pode melhorar as relações entre as pessoas, mas por fases; é progressivo...caso o processo de perdoar seja interrompido e negligenciado, o ressentimento piora e dilata.

3. Existem retrocessos neste processo de perdoar, por vezes recua-se e não se perdoa...é normal. Passado um tempo, retoma-se o ritmo e prossegue o objectivo principal. Atenção, se não for direccionado, o ressentimento pode despoletar deslizes no seio da doença da família - “insanidade é cometer o mesmo erro, à espera de resultados diferentes”. Utilizando a culpa, a vergonha, a humilhação, a raiva sobre situações do passado È verdade que as pessoas significativas nos desiludem, mas também é verdade que também desiludimos os outros.

Queremos profundamente fazer o luto do ressentimento – das “velhas” atitudes destrutivas e insanas. Perdoar permite que o ressentimento fique enfrquecido. Perdoar é decisivo e leva algum tempo até que as "velhas regras", crenças, rotinas e "morram"...
Nos relacionamentos, "nós e nos laços”, não existe a perfeição. Num relacionamento saudavel é permitido e encorajado o crescimento, a aceitação da individualidade, da auto determinação, a intimidade e a cumplicidade. Se gostamos de alguém, é porque essa pessoa reúne as características que consideramos importantes.
Porque é que, passado um tempo de relação, queremos que essa pessoa mude e seja como nós desejamos?

Como pode iniciar o processo de perdoar, em si proprio e na sua relação/família? 
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. Comece o processo de perdoar a si mesmo. Faça um inventario honesto pessoal sobre os aspectos positivos e negativos do seu comportamento. Aborde este inventario com alguém de confiança e disponivel e peça um feedback. Trabalhe o 4º e o 5º passo dos Doze Passos dos Alcoólicos Anónimos.
2. Fique alerta à necessidade de perdoar. A motivação não é estática, pelo contrario oscila. Pense naquilo que gostaria de mudar e faça algo de positivo.
3. Identifique as fases no processo do luto (Negação, Negociação, Raiva, Depressão e no final Aceitação)...na entrega, pouco a pouco.
4. A prece e a meditação permite visualizar e inspirar a mudança. Permite sonhar e ambicionar coisas que achamos não ser possível atingir.

Fases do LutoA. Negação “Amortecedor” cognitivo que permite atenuar o choque e a dor da perda 

B. Negociação na transição – “Talvez esteja mal... Talvez precise da fazer alguma coisa..., porque é que estas coisas negativas só me acontecem a mim?

C. Raiva – culpar os outros. É Ok sentir raiva. Pense: É uma fase, não é um estilo de vida

D. Depressão/isolamento – Permite algum tempo para reflectir, tratar das feridas, da angústia e do tormento.

E. Aceitação – Após passar por tudo aquilo que foi referido nas fases anteriores, algumas das velhas atitudes ficam enfraquecidas. Você está preparado para aceitar a realidade de uma nova situação.

Faça alguns exercícios sobre a raiva – permite que ela flua e saia dentro de ti. Por ex. pode dar uns gritos sozinho no carro, partilhar a frustração, a auto piedade, e o remorso com alguém que compreenda, que oiça e de confiança. È ok sentir raiva. Faz parte dos nossos sentimentos e do nosso interior.

O processo de “cicatrização” e reconciliação inicia-se quando compreendemos a intensidade entre os sentimentos harmoniosos e os sentimentos dolorosos. Quanto mais em raiva está, mais preocupado e alerta fica. Ao expressar o lado dos sentimentos dolorosos, abre-se uma porta e expressa-se o lado harmonioso.

È necessário ficar atento á triangulação (procurar alibis e bode espiatorio) – é uma forma de não resolver o ressentimento de "estimação", é alimentar o problema.
Aprendemos, todos os dias, algo diferente e inspirador nas relações à nossa volta.

Concedei-nos, Senhor
Serenidade para aceitar as coisas (as outras pessoas) que não posso modificar,
Coragem para modificar aquelas que posso (eu próprio)
e a Sabedoria para distinguir uma das outras (entrega).”

1 comentário:

Asdrúbal Gonçalves disse...

Grande amigo eu sei bem o que é isso e foi com a tua ajuda que perdoei alguem que pensei jamais conseguir obrigado por tudo.

P.S. Ainda bem que há pessoas como tu que se dedicação a estas coisas de corpo e alma.